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Quem Somos

O Instituto Paulo Freire de Portugal (IPFP) é uma entidade de direito público, sem fins lucrativos, criada em 1991 e fundada oficialmente em 1 de setembro de 1992.

O IPFP tem por objecto contribuir para a acção cívica, o desenvolvimento da cultura, educação, comunicação e tecnologia, numa perspectiva emancipatória e de assunção de uma cidadania plena, em todos os níveis e âmbitos de acção.

  

Origens e significados do lançamento do "Instituto Paulo Freire de Portugal"

Um início é sempre uma surpresa face a algo que vai surgir, surpresa de um caminho ainda não trilhado, de um desafio do desconhecido que se desenrola à nossa frente. Quando penso em começos, nesses momentos em que nos balançamos para tomar fôlego, para iniciar algo de incerto (um futuro), algumas imagens se cruzam sempre na minha memória. É, por exemplo, o caso do ditado “ano novo vida nova” que, quando era criança, me dava sempre um frémito de coragem para a possibilidade de novas coisas a fazer no ano que ia começar, e de sacudir o que era menos interessante, mais triste, ligado ao passado. É também o que é salientado na “História interminável”, quando Ende nos conduz pela mão e nos desvenda como é mágico o momento em que se abre um livro novo que nos irá proporcionar a aventura de o viver; é ainda a poesia de Gianfrangesco Guarnieri quando, na peça Arena entre Zumbi, vemos povo que exclama ao ver uma criança a andar pela primeira vez: “Vige, que coisa mais linda! Upa neguinho começando a andar”. É também a situação valorizada pelo poema de João Cabral de Melo Neto em que os retirantes, apesar de se debaterem com todas as misérias da sua dura vida, se conseguem maravilhar face a um recém nascido. E as pessoas que chegam comparam o recém nascido, este início incerto e imaculado do começo de vida, à bela pureza de um caderno novo com as páginas brancas ainda por escrever.


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E porque o incerto dealbar de um projecto, o desafio do “que fazer” de que nos fala Paulo Freire, sempre me tocaram especialmente, é com certa emoção que tomo a palavra para iniciar esta sessão, que bem pode ser interpretada como sendo, simbolicamente, o caderno novo de páginas brancas onde juntos iremos escrever e pôr a funcionar o projecto do novo Instituto Paulo Freire de Portugal.

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Por isso quero começar por felicitar todos, sem citar ninguém em especial, a nós todos que estamos aqui começando a escrever este “caderno novo”. É que o Instituto Paulo Freire será o que nós quisermos que seja. Será aquilo que escrevermos nas páginas quase brancas que aqui se nos oferecem desafiadoramente. Claro que há uma ideia inicial à volta da criação deste Instituto. Ele não é uma qualquer associação de pessoas interessadas em educação e/ou em intervenção social. Trata-se do “Instituto Paulo Freire de Portugal”. E o nome de Paulo Freire é, logo à partida, muito significativo. Polémico na sua vida e na sua obra, ele não representa para todos a mesma coisa. Não é sequer alguém cuja vida e obra sejam consensualmente apreciadas e valorizadas. Mas ele sabia-o, e gostava que assim fosse, estimulando até sempre a que sobre todas as questões, se travem “boas brigas”, nos debates, nas críticas, nas reinvenções das suas próprias propostas educativas e de intervenção no social.

Mas sobretudo, não podemos esquecer que ele era alguém que vibrava de indignação face à injustiça social, alguém que, explicitava vigorosamente ideias como: “Minha sensibilidade me leva e arrepio-me de mal estar quando vejo, sobretudo no Nordeste Brasileiro, famílias inteiras comendo detritos em áreas de aterro, comendo lixo, enquanto lixo de uma economia que se vangloria de ser a 8ª ou a 7ª do mundo. Minha sensibilidade ferida faz mais, contudo, do que deixar-me arrepiar e ofender como gente: me deixa indignado e me empurra para a luta política no sentido de transformação radical desta sociedade injusta” (Freire, 1999: 57-58)

E dizia também: “Os educadores progressistas sabem muito bem que a educação não é a alavanca da transformação da sociedade, mas sabem também o papel que eles têm no processo. A eficácia da educação está nos seus limites. Se ela tudo pudesse ou se ela pudesse nada, não haverá que falar nos seus limites – falamos deles precisamente porque não podendo tudo, pode alguma coisa”. (ibid. 30)

  1. Freire, Paulo. (1999). A Educação na Cidade. São Paulo: Cortez Editora.

 

  

 Instituto Paulo Freire de Portugal


O Instituto Paulo Freire de Portugal, com sede provisória na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, em Portugal, nasceu da sinergia de algumas pessoas interessadas em compreender o pensamento de Paulo Freire, pedagogo estudado quer no currículo da Licenciatura em Ciências da Educação quer proposto, como estudo opcional, num dos módulos dos Mestrados em Ciências da Educação.

Em 1999, aquando do I Encontro Internacional “A Carta da Terra na perspectiva da Educação”, ocorrido entre 23 e 26 de Agosto, em São Paulo - Brasil, dinamizado pelo Instituto Paulo Freire, promovido pela UNESCO e pelo CONSELHO DA TERRA, uma investigadora do Centro de Investigação e de Intervenção Educativas (CIIE) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, deslocou-se a São Paulo, tendo participado neste evento e apresentado uma comunicação.

O contacto mais próximo havido com o ideário de Paulo Freire, o conhecimento com os freireanos presentes no citado evento, as decisões aí tomadas e as implicações previsíveis das mesmas, incentivou a realização, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), do I Encontro Internacional de Ecopedagogia, em 24, 25 e 26 de Março de 2000, onde estiveram presentes e participaram não só ecopedagogos que haviam estado em São Paulo como ainda quatro dos cinco directores do IPF do Brasil.

Quase em simultâneo realizava-se, em Lisboa, organizado pela Universidade Lusófona, um evento relacionando os pensamentos de Rui Grácio e de Paulo Freire, estando a nossa Faculdade representada por dois professores catedráticos; também houve a presença de freireanos do IPF de São Paulo.

Este estreitamento de relações fortificou-se e ampliou-se de imediato, com a deslocação dos dois professores catedráticos, a mesma investigadora do CIIE e uma então licencianda do curso de Ciências da Educação, a Bolonha, em Itália, em Março-Abril do mesmo ano, no sentido de participarem no II Congresso Paulo Freire, subordinado ao tema “Nuove tecnologie e sviluppo sostenibile”;

A ideia do lançamento de um Instituto Paulo Freire em Portugal foi crescendo, tendo diversas pessoas interessadas reunido por diferentes vezes.

Porém, seguiram-se alguns meses sob o cenário da tramitação burocrática para que o IPFP estivesse legalmente constituído. Neste entretanto, considerou-se importante a criação do Centro de Recursos Paulo Freire, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, decorrente do estágio de cinco licenciandas.

Tal não foi impeditivo da representação do IPFP em eventos internacionais, como os realizados em Recife, pelo Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas, em Setembro de 2001, e na Argentina, no congresso latino-americano, sob o tema “Actualidad y propectiva del pensamiento pedagógico de Paulo Freire” em Novembro de 2001.

Em 12 de Novembro de 2001, no 7º Cartório Notarial do Porto, o IPFP adquiriu identidade jurídica, tendo sido legalizado o seu estatuto. Em 14 de Dezembro de 2001, na FPCEUP ocorre o evento de apresentação do Instituto Paulo Freire de Portugal e do Centro de Recursos Paulo Freire. Iniciou-se, posteriormente, a apresentação do IPFP um pouco por todo o país, tendo sido levadas a cabo intervenções com comunicações em vários colóquios e congressos em pontos diferenciados do país.

Em 15 de Março de 2002 decorreram eleições para os corpos dirigentes do IPFP, estando simultaneamente a ser contactadas organizações, instituições, entidades públicas e privadas, nacionais e estrangeiras, no sentido de tomarem conhecimento da existência do IPFP e poderem colaborar, de acordo com o definido nas Finalidades desta instituição.
A implementação das actividades do IPFP vai prosseguir na senda do que tem vindo a fazer, quer ao nível da consolidação da sua vida institucional, quer ao nível das suas frentes de investigação e de intervenção.

Excerto do Relato Institucional da constituição do IPFP, elaborado por Amélia Rosa Macedo e publicado no nº 1 da Colecção Querer Saber, do IPFP, Um Caderno Novo.