História e formação do
Instituto Paulo Freire de Portugal (IPFP)
Origens
e significados do lançamento do “Instituto
Paulo Freire de Portugal”
Luiza Cortesão
Um início é sempre uma surpresa
face a algo que vai surgir, surpresa de um caminho
ainda não trilhado, de um desafio do
desconhecido que se desenrola à nossa
frente. Quando penso em começos, nesses
momentos em que nos balançamos para tomar
fôlego, para iniciar algo de incerto (um
futuro), algumas imagens se cruzam sempre na
minha memória. É, por exemplo,
o caso do ditado “ano novo vida nova”
que, quando era criança, me dava sempre
um frémito de coragem para a possibilidade
de novas coisas a fazer no ano que ia começar,
e de sacudir o que era menos interessante, mais
triste, ligado ao passado. É também
o que é salientado na “História
interminável”, quando Ende nos
conduz pela mão e nos desvenda como é
mágico o momento em que se abre um livro
novo que nos irá proporcionar a aventura
de o viver; é ainda a poesia de Gianfrangesco
Guarnieri quando, na peça Arena entre
Zumbi, vemos povo que exclama ao ver uma criança
a andar pela primeira vez: “Vige, que
coisa mais linda! Upa neguinho começando
a andar”. É também a situação
valorizada pelo poema de João Cabral
de Melo Neto em que os retirantes, apesar de
se debaterem com todas as misérias da
sua dura vida, se conseguem maravilhar face
a um recém nascido. E as pessoas que
chegam comparam o recém nascido, este
início incerto e imaculado do começo
de vida, à bela pureza de um caderno
novo com as páginas brancas ainda por
escrever.
(... )
E porque o incerto dealbar de um projecto, o
desafio do “que fazer” de que nos
fala Paulo Freire, sempre me tocaram especialmente,
é com certa emoção que
tomo a palavra para iniciar esta sessão,
que bem pode ser interpretada como sendo, simbolicamente,
o caderno novo de páginas brancas onde
juntos iremos escrever e pôr a funcionar
o projecto do novo Instituto Paulo Freire de
Portugal.
(...)
Por isso quero começar por felicitar
todos, sem citar ninguém em especial,
a nós todos que estamos aqui começando
a escrever este “caderno novo”.
É que o Instituto Paulo Freire será
o que nós quisermos que seja. Será
aquilo que escrevermos nas páginas quase
brancas que aqui se nos oferecem desafiadoramente.
Claro que há uma ideia inicial à
volta da criação deste Instituto.
Ele não é uma qualquer associação
de pessoas interessadas em educação
e/ou em intervenção social. Trata-se
do “Instituto Paulo Freire de Portugal”.
E o nome de Paulo Freire é, logo à
partida, muito significativo. Polémico
na sua vida e na sua obra, ele não representa
para todos a mesma coisa. Não é
sequer alguém cuja vida e obra sejam
consensualmente apreciadas e valorizadas. Mas
ele sabia-o, e gostava que assim fosse, estimulando
até sempre a que sobre todas as questões,
se travem “boas brigas”, nos debates,
nas críticas, nas reinvenções
das suas próprias propostas educativas
e de intervenção no social.
Mas sobretudo, não podemos esquecer que
ele era alguém que vibrava de indignação
face à injustiça social, alguém
que, explicitava vigorosamente ideias como:
“Minha sensibilidade me leva e arrepio-me
de mal estar quando vejo, sobretudo no Nordeste
Brasileiro, famílias inteiras comendo
detritos em áreas de aterro, comendo
lixo, enquanto lixo de uma economia que se vangloria
de ser a 8ª ou a 7ª do mundo. Minha
sensibilidade ferida faz mais, contudo, do que
deixar-me arrepiar e ofender como gente: me
deixa indignado e me empurra para a luta política
no sentido de transformação radical
desta sociedade injusta” (Freire,
1999: 57-58)
E dizia também: “Os educadores
progressistas sabem muito bem que a educação
não é a alavanca da transformação
da sociedade, mas sabem também o papel
que eles têm no processo. A eficácia
da educação está nos seus
limites. Se ela tudo pudesse ou se ela pudesse
nada, não haverá que falar nos
seus limites – falamos deles precisamente
porque não podendo tudo, pode alguma
coisa”. (ibid. 30)
1. Freire,
Paulo. (1999). A Educação na Cidade.
São Paulo: Cortez Editora.
O
Instituto Paulo Freire de Portugal - Relato
Institucional
Amélia Macedo
O Instituto Paulo Freire de Portugal,
com sede provisória na Faculdade de Psicologia
e de Ciências da Educação
da Universidade do Porto, em Portugal, nasceu
da sinergia de algumas pessoas interessadas
em compreender o pensamento de Paulo Freire,
pedagogo estudado quer no currículo da
Licenciatura em Ciências da Educação
quer proposto, como estudo opcional, num dos
módulos dos Mestrados em Ciências
da Educação.
Em 1999, aquando do I Encontro
Internacional “A Carta da Terra na perspectiva
da Educação”, ocorrido entre
23 e 26 de Agosto, em São Paulo - Brasil,
dinamizado pelo Instituto Paulo Freire, promovido
pela UNESCO e pelo CONSELHO DA TERRA, uma investigadora
do Centro de Investigação e de
Intervenção Educativas (CIIE)
da Faculdade de Psicologia e de Ciências
da Educação da Universidade do
Porto, deslocou-se a São Paulo, tendo
participado neste evento e apresentado uma comunicação.
O contacto mais próximo havido com o
ideário de Paulo Freire, o conhecimento
com os freireanos presentes no citado evento,
as decisões aí tomadas e as implicações
previsíveis das mesmas, incentivou a
realização, na Faculdade de Psicologia
e de Ciências da Educação
da Universidade do Porto (FPCEUP), do I Encontro
Internacional de Ecopedagogia, em 24, 25 e 26
de Março de 2000, onde estiveram presentes
e participaram não só ecopedagogos
que haviam estado em São Paulo como ainda
quatro dos cinco directores do IPF do Brasil.
Quase em simultâneo realizava-se, em Lisboa,
organizado pela Universidade Lusófona,
um evento relacionando os pensamentos de Rui
Grácio e de Paulo Freire, estando a nossa
Faculdade representada por dois professores
catedráticos; também houve a presença
de freireanos do IPF de São Paulo.
Este estreitamento de relações
fortificou-se e ampliou-se de imediato, com
a deslocação dos dois professores
catedráticos, a mesma investigadora do
CIIE e uma então licencianda do curso
de Ciências da Educação,
a Bolonha, em Itália, em Março-Abril
do mesmo ano, no sentido de participarem no
II Congresso Paulo Freire, subordinado ao tema
“Nuove tecnologie e sviluppo sostenibile”;
A ideia do lançamento de um Instituto
Paulo Freire em Portugal foi crescendo, tendo
diversas pessoas interessadas reunido por diferentes
vezes.
Porém, seguiram-se alguns meses sob o
cenário da tramitação burocrática
para que o IPFP estivesse legalmente
constituído. Neste entretanto, considerou-se
importante a criação do Centro
de Recursos Paulo Freire, na Faculdade de Psicologia
e de Ciências da Educação,
decorrente do estágio de cinco licenciandas.
Tal não foi impeditivo da representação
do IPFP em eventos internacionais,
como os realizados em Recife, pelo Centro Paulo
Freire – Estudos e Pesquisas, em Setembro
de 2001, e na Argentina, no congresso latino-americano,
sob o tema “Actualidad y propectiva del
pensamiento pedagógico de Paulo Freire”
em Novembro de 2001.
Em 12 de Novembro de 2001, no 7º Cartório
Notarial do Porto, o IPFP adquiriu
identidade jurídica, tendo sido legalizado
o seu estatuto. Em 14 de Dezembro de 2001, na
FPCEUP ocorre o evento de apresentação
do Instituto Paulo Freire de Portugal e do Centro
de Recursos Paulo Freire. Iniciou-se, posteriormente,
a apresentação do IPFP
um pouco por todo o país, tendo sido
levadas a cabo intervenções com
comunicações em vários
colóquios e congressos em pontos diferenciados
do país.
Em 15 de Março de 2002 decorreram eleições
para os corpos dirigentes do IPFP,
estando simultaneamente a ser contactadas organizações,
instituições, entidades públicas
e privadas, nacionais e estrangeiras, no sentido
de tomarem conhecimento da existência
do IPFP e poderem colaborar,
de acordo com o definido nas Finalidades desta
instituição.
A implementação das actividades
do IPFP vai prosseguir na senda
do que tem vindo a fazer, quer ao nível
da consolidação da sua vida institucional,
quer ao nível das suas frentes de investigação
e de intervenção.
Excerto
do Relato Institucional da constituição
do IPFP, elaborado por Amélia Rosa Macedo
e publicado no nº 1 da Colecção
Querer Saber, do IPFP, Um Caderno Novo.